A plástica sonora da saga
(publicado em 27/02/2005, no Caderno Cultura, do Jornal Diário do Nordeste)
A Saga de uma Certa Bárbara é um espetáculo mais que interessante. É, por certo, um desses acontecimentos artísticos que, em Fortaleza, vêm lembrar, sugerir experimentando, que aqui, nesta cidade, há talentos que se determinam insurgindo-se contra o radical ´salve-se quem puder´ cotidiano no qual as verdades (estéticas) e seus donos pululam de bar em bar.
A Saga é o ato de contar e recontar e, me parece, conta-se nesse espetáculo não apenas a saga feminina, mas sobretudo a saga humana: nossas renúncias e encontros, fugas e paixões.
Na saga uma mulher esqueleto cobre seus ossos com a carne de um homem, mas ele, o homem, não fica só nos ossos. Para os olhos e ouvidos mais atentos essa metáfora contida no segundo conto que se conta na saga está ali, no palco e no ´fosso´, numa comunhão que, de tão plena, pode passar despercebida. Refiro-me ao musical, à partitura que se compôs para a Saga.
Rodrigo veste com sua música os contos que Juliana conta. A partitura é viva, vívida e vivida. Eles, Juliana e Rodrigo, vivem uma trama musical que já nos foi familiar nos anos 80, quando experimentávamos muito, mas que agora caiu em desuso... coisas da moda.
Sonoplastia é neste caso apenas um rótulo equivocado. O que temos ali, ao vivo, é uma trilha sonora-plástica-elástica que se executa aos vivos.
Elvis de Azevedo Matos
Músico e Professor da FACED/UFC