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crítica - Arthur Guedes

A saga do ventre

"Num ritual amoroso, uma atriz, grávida de todos os nossos corações, gesta a realidade linda e cruel da vida. Ela nos prepara."
A ESPERANÇA, do pintor <br>austríaco Gustave Klimt <br> (1862-1918)
A ESPERANÇA, do pintor
austríaco Gustave Klimt
(1862-1918)
A saga do ventre
(publicado em 27/02/2005, no Caderno Cultura, do Jornal Diário do Nordeste)


Sei lá que idade eu tinha. Talvez sete. Acho que muito bem menos. Nas tardes terrivelmente ensolaradas e sonolentas de Acopiara, nós, os netos, em torno da nossa avó, na varanda, aproveitando a brisa. Uma experiência tão profunda e encantada que ainda hoje lembro do cheiro de talco do corpo da minha avó, da sua voz firme brotando de uma mulher muito velha, muito magra, mulher-raiz, sem nenhum cabelo branco, mãos firmes, olhos afiados, a anciã mais bonita do mundo.

Nas tardes de calor e sono, enquanto os adultos dormiam, minha avó contava histórias. Histórias encantadas. A menina que era enterrada viva no canavial, mas cantava vinganças. A criada invejosa que cravou um alfinete mágico na cabeça da moça, transformando-a em pomba. O astuto macaco que conduzia a onça perversa para uma sanguinolenta armadilha. Histórias lindas e cruéis. Como linda e cruel é a vida. Ela nos preparava.

Sem saber. Ou sabendo mais do que eu sei agora. Minha avó me ensinava teatro. O primeiro teatro. Aquele de antes do pernicioso Aristóteles inventar receitas quase científicas. O teatro que não é espetáculo, não é espelho e nem é especulação. O teatro que é experiência, vivência. Real, como todo ritual deve ser. O primeiro teatro, a narração sábia. Sem tempo e sem sexo. O princípio feminino não é um sexo. Sem manipulações e anterior às manipulações políticas corretas ou incorretas. Quase um ritual de passagem. Quase uma passagem. A narração sábia.

Minha avó, eu menino, as tardes quentes e preguiçosas de Acopiara estão presentes em ´A saga de uma certa bárbara´. Lá estão também eu de agora, você de qualquer tempo e uma mulher encantada, sábia, narradora, que nos transforma em frutos do seu ventre.

Num ritual encantado, uma atriz, grávida do nosso futuro, sussurra ameaças, canta verdades imemoriais, atrai, assusta, acalenta, enche-nos de esperança e de arrependimentos. Num ritual amoroso, uma atriz, grávida de todos os nossos corações, gesta a realidade linda e cruel da vida. Ela nos prepara.

E se a gente se lembrasse de antes de a gente saber quem a gente é?
E se a gente se lembrasse de quem a gente vai ser?
E se a gente se lembrasse?
Você precisa viver ´A saga de uma certa bárbara´!
Tenha medo não... Teatro tem gosto de placenta e de pitomba...


Arthur Guedes
Dramaturgo e diretor teatral

27/02/2005

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