A saga de uma certa Bárbara convida para uma leitura do mundo feminino a partir da experiência própria de ser mulher

O poder feminino
(publicado em 09/12/2004, no Caderno Vida & Arte, do Jornal O Povo)
Primeiro o perfume de incenso e os sons. Então, faz-se luz e podemos passear a vista pelo espaço cênico todo marcado em pedras de vários tipos, desenhando círculos. Num canto, a figura esguia, de beleza delicada, da atriz Juliana Carvalho. Ela interpreta Bárbara. Não exatamente uma personagem. Mais uma entidade feminina. Vem prenhe de histórias maravilhosas que, segundo ela, são ''bálsamos medicinais. Não exigem que se faça nada, que se seja nada, que se aja de nenhum modo, basta que prestemos atenção''.
Assim somos convidados a ingressar no universo fantástico de A Saga de uma certa Bárbara, cartaz deste mês do projeto Cena Experimental, na sala Nadir Papi Sabóia do Teatro José de Alencar. O espetáculo principia convocando todos os nossos sentidos a uma atitude receptiva, expectante, feminina. Quem não declinar o convite, se permitirá uma rara experiência teatral que nos desloca do sistema simbólico que tradicionalmente têm servido de base para boa parte da criação artística e outras intervenções na vida humana. Refiro-me à visão de mundo masculina dominante ou, como afirmam alguns, ao falogocentrismo de uma cultura forjada por (e para) homens que criou seu próprio arcabouço de representações fundado em noções como razão, ordem, verdade, sujeito etc. Todo o teatro ocidental, com seus cânones, não foi inventado com base nessa cultura falogocêntrica? Não eram as mulheres, nos primórdios dessa arte, literalmente banidas dos palcos?
A Saga de uma certa Bárbara se posiciona contra essa cultura tanto em fundo quanto em forma: elege não apenas o feminino, mas o feminino selvagem como tema central de sua narrativa; e, para apresentá-la, rejeita a rigidez dos códigos do teatro convencional com suas estruturas lógicas vinculadas às configurações de poder, se aproximando do campo da performance, essa mais livre e, portanto, mais propensa a por em cheque essas estruturas.
Só isso já conferiria algum interesse e relevância histórica a esse trabalho. Mas, como o teatro não se resume a uma carta de boas intenções (não poucas pesquisas instigantes resultam em peças sofríveis), o bom mesmo é que o alvo posto em mira pela Tear Companhia de Teatro é atingido em cheio. A poética idealizada se concretiza com tal integridade, que não se consegue detectar qualquer fissura entre o concepção e realização. Tudo flui com graça e leveza, a começar pela atuação de Juliana Carvalho que veste e despe as peles de narradora, La Loba, Mulher-esqueleto e Mulher-foca com notável desenvoltura. O bom gosto e o perfeito ajuste dos elementos figurino, cenário, luz e sonoplastia executada ao vivo, produz uma harmonia de conjunto pouco comum em nossos palcos. Essa inteireza formal, além de sedutora, imprime credibilidade e força ao discurso pela cura de uma sociedade machista, que se ocupa mais da destruição que da gestação. Alguém tinha mesmo que falar sobre isso. E falar bem. E esse alento nos veio pelas mãos mágicas da Tear.
Cotação: ótimo
Edilberto Mendes
jornalista e dramaturgo