O Abajur Lilás, texto do paulista Plínio Marcos, foi criado em 1969 e no mesmo ano começaram os ensaios para montagem. Rapidamente, o texto foi proibido pela censura, sendo liberado só em 1975, quando enfim se tentou montá-lo pela primeira vez: com o diretor Antônio Abujamra, o cenógrafo Flávio Phebo e os atores Lima Duarte, Cacilda Lanuza, Walderez de Barros, Ariclê Perez e Osmar di Pieri.
A peça mais uma vez foi vetada pela Polícia Federal, considerada “atentatória à moral e aos bons costumes”, depois de um longo processo jurídico e uma empenhada campanha da classe teatral de São Paulo. “As circunstâncias fizeram de O Abajur Lilás mais do que uma simples peça, uma bandeira” (Ilka Maria Zanotto).
Somente 21 anos depois a montagem pode acontecer e foi sucesso: produção de Antônio Fagundes, direção de Fauzi Arap, cenário e figurino de Tawfik e Vigna e elenco formado por José Fernandes de Lyra (Gero), Walderez de Barros (Dilma), Annamaria Dias (Célia), Claudia Mello (Leninha) e Zé Carlos Cardoso (Osvaldo).
Plínio Marcos fundiu em “O Abajur Lilás” talento e ira, mais do que em outras obras-primas, como “Navalha na Carne” e “Dois Perdidos Numa Noite Suja”. Na crítica intitulada “Linguagem livre, em Abajur Lilás”, escrita por Cláudio Pucci na semana de estreia do espetáculo, em 1980, “O Abajur Lilás é uma reflexão em forma de teatro sobre o ser humano, seus limites, paixões, fracassos, esperanças e porque é isso, e é bom teatro, contém o retrato do submundo, a alegoria política, e até mais se quiserem, mantendo-se vivo (também pela permanência, no essencial, dos problemas que levanta) como inquietante transparência deste momento”.
A trama, que inclui tortura e assassinato, foi escrita há 40 anos e infelizmente resiste ao tempo, demonstrando a extrema atualidade de seu contexto. Conta o drama de três prostitutas torturadas pelo cafetão que quer descobrir quem quebrou o abajur lilás do seu quarto. Um jogo de torturas e confissões, onde o conflito interno de cada personagem é a busca da redenção.
Ao longo desses 35 anos, as montagens de “O Abajur Lilás” geralmente foram provocantes e geraram instigantes reflexões sobre a degradação humana nas relações entre personagens que sobrevivem à beira da marginalidade.
Na montagem do
Grupo Imagens de Teatro, de Fortaleza (CE), isso não é diferente. Aliás, a provocação é a alma do negócio nessa experiência artística e política, que completa um ano esse mês, em nova temporada. Agora, no Chopp do Bixiga, um bar usualmente frequentado por gringos, turistas, boyzinhos e outros personagens da Praia de Iracema, em pleno Dragão do Mar. Vale conferir!
O ambiente é um bordel, tendo à frente um bar, o “O Leite da Mulher Amada”, salpicado de luzes vermelhas. Há música de cabaré, cantada ao vivo. Ao fundo, o quarto na penumbra, onde ocorrem os programas e as tramas. O cheiro de bebida, misturado com as brasas de cigarro e com as palavras sujas saídas das bocas de mulheres mal amadas, são elementos que compõem essa poesia marginal.
O público, logo ao entrar terá o contato direto e real com o elenco, pois a plateia será composta por mesas e cadeiras do próprio Chopp do Bixiga, onde vez ou outra será servida uma cachacinha. O universo abordado é o que sempre determina o espaço cênico e não há qualquer distância entre personagens e espectadores.
Ação dramática, humana e de alta significância, o espetáculo traz uma nova provocação para o tipo de público que frequenta aquele bar. Essa montagem de O Abajur Lilás mostra o universo nu e cru pra uma sociedade que muitas vezes tem dificuldades de encarar uma realidade tão próxima de si. Essa é a nova provocação, “por isso fazer o espetáculo acontecer no coração do Dragão do Mar”, diz o diretor Edson Cândido. “O Abajur pretende semear uma inquietação no público do Chopp do Bixiga e arredores”, completa.
Como em outros trabalhos do Grupo Imagens, O Abajur Lilás proporciona um diálogo intenso com a cidade. Assim já o fez no entorno do Theatro José de Alencar (centro), do SESC SENAC Iracema (Praia de Iracema), também no centro de Guaramiranga/CE (em apresentação iniciada à meia-noite, em praça pública) e em Goiânia/GO, no Festival Nacional de Goiânia, onde recebeu importantes prêmios, nas seguintes categorias: "melhor espetáculo", "melhor direção", "melhor ator", "melhor atriz" e "melhor atriz coadjuvante". O espetáculo foi selecionado e vai se apresentar em Julho no FIT 2010 (Festival Nacional Ipitanga de Teatro / Bahia). Sucesso de público e critica.
Definitivamente, esse universo denso e marginal invade os palcos do teatro cearense.
Elenco: Mara Alcântara, Lana Gurgel, Kátia Camila, Gilson Tenório, Fábio Frota, Beto Meneis, Eveliny Melo e Clara Luz
Núcleo de Intervenção: Cintia Dayse, Renata Cacalcante, Solon Nogueira, Júnior Martins, Aluisio Barbosa, Tom Jonese Gaby.
Direção: Edson Cândido
Apoio em Comunicação: TEMBIÚ – Alimento de Alma
O Grupo Imagens de Teatro mergulhou em uma pesquisa profunda, tanto da obra como do universo que o autor Plínio Marcos traz para o seu texto, através de análises sobre a vida e obra do autor e contextualização histórica, prosseguindo com pesquisa de campo, palestras, seminários, oficinas, filmes e vivência em entidades, enriquecida por laboratórios onde os atores visitaram cinemas pornôs, casas de prostituição, saunas, bares e praças, locais onde os personagens retratados na peça viveriam.
Esse é o princípio que torna a obra de Plínio Marcos tão contemporânea, pois é possível encontrar esses personagens em cada esquina de Fortaleza. Como em toda obra do autor, O Abajur Lilás expõe a alma humana.
Nova temporada de “O Abajur Lilás”, do Grupo Imagens de Teatro
sábados de junho e julho, sempre às 20h
no Chopp do Bixiga (Rua Dragão do Mar, 108 - Praia de Iracema – Fortaleza/CE)
entrada: r$10 e r$20
info: (85)3219-7690 (bar) e (85)8834-1071 (Grupo Imagens de Teatro)
censura 18 anos
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