Fortaleza convive com diversas mazelas sociais, entre elas o uso de drogas por parte da juventude — em particular o crack, sendo este um fator que reproduz outras novas mazelas.
Contendo até 75% de cocaína pura, o crack é considerado a forma mais eficaz de causar consumo compulsivo e dependência, produzindo imediatamente efeitos psicofísicos, com pico em cinco minutos.
A intensidade da euforia obtida parece contribuir para o potencial de dependência da droga, também proporcional à “fissura” pelo reuso da substância, que surge assim que os efeitos começam a dissipar-se — entre 10 a 20 minutos após a administração (por inalação da fumaça) —, levando à busca compulsiva por nova administração (“paulada”).
Os efeitos físicos observados são taquicardia, hipertensão, pupilas dilatadas, tensão muscular, tremores e sudorese intensa, e o uso crônico acarreta perda de peso significativa.
Há quase uma década o crack invadiu Fortaleza, conquistando novos consumidores em todos os setores sociais e faixas etárias, tanto pelo preço como pela capacidade de drogadição. É visto como uma droga “democrática”, que tem se alastrado de forma crescente ano após ano, deixando grande rastro de destruição por onde é usado.
Embora os primeiros episódios de consumo sejam marcados por euforia, sensação de bem-estar e desejo por repetir o uso (efeitos psíquicos desejáveis), a continuidade do consumo resulta em ansiedade, hostilidade e depressão (efeitos psíquicos colaterais indesejáveis).
Observou-se que os usuários tendem a consumir álcool para tentar obter o controle da ansiedade. Mas este mecanismo de controle não funciona e leva à dependência alcoólica. Continuando o consumo do crack, doses mais altas muitas vezes produzem ilusões perceptivas (visuais e auditivas) e, finalmente, a psicose cocaínica, caracterizada por extrema hipervigilância, delírios paranóides e alucinações. As diversas readministrações podem acarretar períodos de consumo de horas e até dias, geralmente até o esgotamento do suprimento da droga. Nessas condições iniciam-se os casos criminosos — que passam a caracterizar a criminalidade aquisitiva, responsável pelo aumento (surtos) da violência.
Além disso, outras mazelas sociais estão associadas ao uso de crack, como: disseminação de DSTs/AIDS, hepatite, tuberculose, troca da droga por sexo, quebra de vínculos conjugais, familiares, comunitários e sociais e situação de risco (vida na rua) observada em vários usuários.
O documentário
Selva de Pedra – A Fortaleza Noiada encampa o desafio de fazer emergir com clareza e profundidade o fenômeno do consumo do crack na cidade e se propõe a fornecer elementos para que a sociedade e o poder público possam refletir juntos sobre esta problemática, de modo a preencher um vácuo na instrumentalização das políticas públicas de prevenção (que envolvem aspectos de saúde, educação, segurança etc.), tanto por parte do Município como do Estado.
O objetivo maior é o de contribuir para o desenvolvimento de alternativas capazes de promover o possível enfrentamento competente desta grave patologia social, bem como instrumentalizar as fórmulas adequadas — para obter a recuperação dos jovens que se tornaram suas vítimas, bem como dos que ao seu redor foram atingidos, de alguma forma, pelos seus impactos sociais.
No seu todo, o registro audiovisual (DVD) faz um diagnóstico do perfil dos jovens usuários de crack e um CD aborda musicalmente a temática do uso da droga em cidades cearenses, enquanto um livro sistematiza linearmente estes conteúdos — um contributo para a produção de conhecimentos sobre o tema e na elaboração e execução de estratégias eficazes e capazes de realizar o enfrentamento urgente da questão.
A meta é traçar um paralelo com o atual quadro hoje observado na capital cearense e os desafios que devemos enfrentar para transpor este “câncer social”, sentido por todos os seus moradores, porém com mais força nos setores ditos “populares”. Um dos resultados previstos é o lançamento da campanha Aliança Social Contra o Crack, que deverá ganhar repercussão após o lançamento do trabalho.
Como no documentário “Falcão - Meninos do Tráfico”, dos cariocas MV Bill e Celso Athayde, por meio do qual todo o Brasil conheceu uma outra face da violência, Selva de Pedra – a Fortaleza Noiada mergulha no circuito que envolve, ao mesmo tempo, os lados mais underground e mais soçaite da cidade, delineando uma cartografia das zonas atingidas pela droga e mostrando a estrutura do mercado que a envolve, as pessoas que dele participam, seu funcionamento, organização (ou desorganização), e seus códigos e leis internas, buscando desmistificar o discurso repressor-estatal, assim possibilitando uma análise mais aproximada da realidade que envolve esse complexo problema.
Selva de Pedra – a Fortaleza Noiada trata de ir além da postura "denuncista", "panfletária" ou mesmo a de "buscar culpados" entre as autoridades. O desafio, entretanto, é trazer à tona todas as contradições, dilemas e dificuldades envolvidos para entender e intervir em uma das maiores “pragas” que já recaiu sobre a juventude fortalezense e do Brasil, além de refletir sobre o impacto no aumento dos números de crimes relacionados ao consumo desta droga (situação que infelizmente se apresenta também em centros urbanos de todo o País).
A idéia central do documentário expande a usual visão estreita e limitada, maniqueísta, policial e de viés patológico, ou seja, restrita a uma abordagem em que o usuário é encarado ou como um doente ou como um bandido. Mais uma vez, o objetivo maior é trazer a público um olhar eficiente sobre os danos sociais que a droga acarreta ao usuário e ao seu entorno psicossocial.
O projeto conta com o apoio da Prefeitura Municipal de Fortaleza, Governo do Estado do Ceará e BNB-Banco do Nordeste do Brasil.
O CD
Coletânea sobre o Crack, que integra o kit
Selva de Pedra - a Fortaleza Noiada, traz uma faixa multimídia (interativa) com as cenas do documentário (acesse o trailer no
YouTube/Selva_de_Pedra) e foi lançado dia 20 de junho, na final cearense do Festival RPB-Rap Popular Brasileiro, no Condomínio Cultural da CUFA Ceará (Teatro da Boca Rica / Praia de Iracema).
O documentário tem pré-lançamento agendado nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul do País — também atingidas, cada qual à sua maneira específica, pela epidemia do crack.
Apoiadores e parceiros deste projeto:
Prefeitura Municipal de Fortaleza, Governo do Estado do Ceará e BNB-Banco do Nordeste do Brasil
Ficha Técnica
Ano de Produção: 2008-2009
Duração: 40 minutos
Direção: Preto Zezé e Edmar Jr.
Roteiro: Preto Zezé e Edmar Jr.
Fotografia: Eduardo Magalhães e Edmar Jr.
Pesquisa: Cynthia Studart e Plauto Ferreira
Produção: Negrada Produções
Edição de Texto: Max Krichanã
Secretaria Geral: Liduína Costa
Realização: CUFA AUDIOVISUAL DO CEARÁ
Selva de Pedra – a Fortaleza Noiada
lançamento dia 01-12 (ter) a partir das 17h
participação do MV Bill e do Ministro Tarso Genro
no Plenário 13 de Maio da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (Av. Desembargador Moreira, 2807 - Dionísio Torres)
entrada franca
info: (85)3227-2839 e 8812-5792 ou contato@cufaceara.org.br